Um projeto, Palmas, 2015

Um Projeto, Palmas

CENTRO

Foto 1B1

ACSO-91, Quadra 09, Lote 21, Palmas

Foto 1B2

Construção, Palmas

Os anos de todos eles
A gente contava nos dedos […]
Xavier Santos, Infâncias

Palmas, Janeiro de 2015. Em um final de tarde de domingo, após um longo percurso pelo Plano Diretor Sul da capital, passando por construções esparsas, extensos espaços vazios e ruas sem pedestres, encontramos um homem e uma criança trabalhando no estágio inicial da alvenaria de uma casa. É a única construção em um raio de centenas de metros. Pulando os fios de náilon do gabarito, a menina busca tijolos baianos e, um em cada mão, os leva até o homem, que os assenta na parede. Uma cadeirinha de praia repousa aberta entre as tabeiras, para o descanso. Macione Costa, um empresário da construção civil de 31 anos, maranhense de Mirador, veio com os pais para o Tocantins em 1994 ainda criança. Eles queriam construir uma vida melhor. Pouco mais de duas décadas depois, o empresário e sua filha, Maria Gabrielly, edificam juntos sua casa, a primeira de uma nova quadra.

O que mudou no Tocantins desde sua criação, em 1989, cinco anos antes de a família Costa chegar a Ananás, no Norte do estado, até hoje? Após a demarcação de sua fronteira, que agora separava politicamente o estado de Goiás, aqueles que já ali habitavam e os que vieram de outros locais se engajaram, deliberadamente ou não, nos processos de formação de identidade que seguiram a criação do novo estado. Uma parte essencial deste processo aconteceu na região central do território, também o centro do Brasil. Ali, entre as cercas de uma fazenda, na margem direita do Rio Tocantins, os líderes locais conceberam uma capital brasileira.

Foto 1C1

O empresário Macione Costa de Oliveira e sua filha Maria Gabrielly Costa constroem a primeira casa da quadra 141-B, Palmas

Avenida NS1, Palmas

Rua sem nome, Palmas

É com a mesma emoção, sempre crescente, com que eu e Dona Aureny, de mãos dadas, atravessamos uma cerca de arame enfarpado que tinha ali na rótula dessa praça, que hoje é a rótula dessa praça, olhando para o platô, para a colina onde está hoje o Palácio Araguaia, e diversas vezes eu gritava ‘é aqui, meu bem. É aqui que nós vamos implantar o Palácio Araguaia, o centro da cidade mais bonita do Brasil, da cidade mais central do Tocantins e do Brasil, é aqui que nós vamos construir a última capital planejada do século XX [1]

Como aponta o geógrafo Jean Carlos Rodrigues, Palmas é a única cidade genuinamente tocantinense. Criada em 1989 em meio a um turbulento processo político que lutava para garantir sua incorporação, em oposição a manter a sede administrativa do Tocantins na primeira capital, Miracema, Palmas praticamente não existia quando seus primeiros moradores começaram a chegar. Em pouco mais de 25 anos, sua população foi de zero a 250 mil pessoas. No início do século 21, é a capital brasileira que mais cresce.

Apesar de projetada – ou exatamente por isso, acreditam alguns – Palmas poderia ser dividida em duas. Uma, a cidade formal: planejada, repleta de padrões e formalismos modernistas, rica em espaços de lazer, e espaços vazios aguardando valorização; de outro lado, a cidade informal, repleta de irregularidades, desigualdades sociais e degradação ambiental, o lugar dos excluídos [2]. O trecho de um texto de 2010 da arquiteta e urbanista Germana Pires Coriolano representa a visão crítica de uma cidade que repetiu os mesmos problemas de ocupação do solo de outras capitais planejadas que vieram décadas antes dela, principalmente Brasília.

Como na Capital brasileira, o projeto de Palmas é criticado por favorecer o transporte automotivo: o pedestre palmense tem em si algo de clandestino e heroico. Em sua história sobre o andar, Rebecca Solnit lembra: Assim como a linguagem limita o que pode ser dito, a arquitetura limita por onde se pode caminhar – àquele que caminha, no entanto, é dado inventar outros rumos [3].

Os elders William Kesler e Cason Patterson na Avenida LO 27, Palmas

Thaís Lorrani Martins de Souza na Praia do Caju, Palmas

Izaulinda Macedo, Praia dos Arnos, Palmas

José Ricardo Ferreira com sua filha Sibeli, Praia do Caju, Palmas

Residência, Palmas

Residência, Palmas

Residência, Palmas

Comércio em Construção, Palmas

Qual a diferença entre ser maranhense e colombiano em Palmas?

Nascido em Barranquilla, no Caribe colombiano, Carlos Enrique Franco Amastha imigrou para o Brasil há 32 anos e se mudou para Palmas em 1999. Primeiro prefeito estrangeiro eleito em uma capital do Brasil, o empresário do ramo de educação à distância, que chefia o executivo palmense desde 2012, diz que vinha enfrentando xenofobia desde que chegou ao Brasil. Em Palmas, onde a grande maioria da população veio de outras partes do país ou é descendente de imigrantes, a possível rejeição causada pelo preconceito – reforçado pelos adversários nos palanques da campanha – não surtiu efeito no resultado final da eleição.

Carlos Amastha, Prefeito, Palmas

Raimundo Alves Pereira, Primeiro Sargento da Polícia Militar do Estado do Tocantins, Avenida LO 27, Palmas

Raimundo Alves Pereira, Pastor da Igreja do Reino Celestial, Avenida LO 27, Palmas

A função militar é uma atividade de solução de conflitos. Com o preparo espiritual que adquirimos com a palavra de Deus, é muito mais fácil de resolver um problema no local do que dar ordem de prisão e levar para a delegacia. O Primeiro-sargento da Polícia Militar do Estado do Tocantins Raimundo Alves Ferreira é um dos criadores da Igreja do Reino Celestial. Seu templo, que tem aproximadamente 50m2, é um de pelo menos outros seis prédios ocupados por igrejas evangélicas localizadas ao longo da LO 27, uma das principais avenidas comerciais de Palmas.

Da Bíblia, uma passagem de onde Ferreira busca seu refúgio:

Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.
Salmos 127:1

Cristo, Palmas

Cícero Belêm Filho, ator e diretor, Palmas

Memorial Coluna Prestes, Praça dos Girassóis, Palmas

Carrinho de Sorvete, Praça dos Girassóis, Palmas

Paulo Vieira, ator, Palmas

Em 24 de Junho de 1990, havia apenas um bar em Palmas transmitindo o jogo da Copa do Mundo entre Argentina e Brasil no Estádio Delle Alpi, na cidade italiana de Turim. Joana Ribeiro Guedes estava entre os telespectadores. Antes que pudesse ver Claudio Canniggia tirar a seleção brasileira da Copa, ela começou a sentir as primeiras contrações do parto da gravidez que trouxe consigo quando decidiu vir trabalhar no Mercado Pioneiro, um dos primeiros varejos da capital que surgia, com o patrão de Porto Nacional, cidade histórica 60 km ao sul do marco zero da cidade. A capital já era ali, mas absolutamente tudo estava em construção. Para Joana, o prédio que mais faria falta nas próximas horas seria um hospital.

Joana deu à luz na carona de um carro que corria rumo ao hospital mais próximo, em Porto Nacional. A primeira pessoa a nascer na capital veio ao mundo no distrito de Taquaralto, pouco antes da metade do caminho entre as duas cidades. Pelo pioneirismo, a criança recebeu o nome de Palmeryo.

Palmeryo Feitosa, o primeiro palmense, e sua mãe, Joana RIbeiro Guedes, Palmas

Outdoor, Palmas

Outdoor, Palmas

O maior boi de concreto do mundo, Miracema

Everton dos Andes, músico, Porto Nacional

Quando o imenso reservatório da hidrelétrica do Lajeado formou o Lago de Palmas, parte de Porto Nacional foi inundada e o músico e artista Everton dos Andes viu ali a realização da lenda da Buiúna. Em ritmo de frevo, cantou: Bagunçaram o coreto / O coreto caiu / Destamparam o buraco / E a Buiúna saiu. Onde há um rio no Norte do Brasil – e há muitos –, é provável que a Buiúna, ou Cobra Grande, esteja no imaginário local. Em Porto Nacional, essa imensa cobra que abandona a floresta para viver submersa serve, na narrativa folclórica, como o arrimo que mantem a cidade firme na margem do Tocantins. Se a Buiúna sai, a cidade afunda.

Não é difícil entender porque Everton, nascido em 1966, quando Porto Nacional, cidade histórica de mais de 200 anos, ainda fazia parte da região Norte do Estado do Goiás, canta a lenda amazônica num ritmo nordestino. Porto sempre foi uma cidade de vanguarda na discussão e luta pela criação do Estado do Tocantins, e sua maior contribuição nesse processo talvez esteja na formação de uma identidade cultural tocantinense. Como o discurso identitário de uma comunidade tão vasta quanto o Tocantins precisa ser coerente na sua busca, mas não necessariamente na sua forma, manifestações artísticas de diversas partes do Brasil surgem entremeadas ao folclore e à arte local na formação de algo novo e único.

Bonecos de Carnaval, Porto Nacional

[1] José Wilson Siqueira Campos, em Palmas: História da Criação e Implantação.

[2] Palmas: entre o planejamento e a exclusão, Germana Pires Coriolano, set 2010.

[3] Rebecca Solnit, Wanderlust: A History of Walking, 2001.