Muro do Cemitério, Xambioá

NORTE

Na geografia é claro que muda, mas na vida não muda nada. É só uma divisão de Estado. A gente simplesmente nasceu em um Estado que hoje é outro.

Em frente ao salão de Gilberto Oliveira na Rua Treze de Maio uma estátua do Cristo Redentor parece abandonada há muitos anos. Não há sinais de obras no local; vergalhões despontam do monumento pela metade. Na sala, equipada apenas com o estritamente necessário para o corte de cabelo, um retrato pendurado na parede é o único objeto decorativo.

No igualmente austero Hotel Wanderlândia, às margens da TO 010, o maranhense João Pereira da Silva relembra de quando chegou à região, atrás de enriquecer com o garimpo. Nessa época não tinha nada aqui, só umas casinhas de palha e a Belém-Brasília. Os garimpeiros entravam na mata, encontravam aquela mancha e viravam os donos das terras.

Em 1986, após ter perdido tudo que conquistara nas minas de cristal, Pereira trocou Goiás pelo Pará. Após 7 anos na região de Altamira seus negócios outra vez se desmantelaram. O egoísmo é a infelicidade do homem, ele diz. Em 1990, quando voltou, Wanderlândia já era uma cidade do Tocantins. No entanto, para João Pereira, em retrospecto, parece que pouco tinha mudado: Quando eu voltei ainda era norte de Goiás, não era?

Wanderlândia, um município de 11 mil habitantes situado entre o cerrado e a floresta amazônica no norte do Tocantins, se desenvolveu na segunda metade do século XX no entroncamento das rodovias TO 010 e a BR 153, a Transbrasiliana, uma das maiores rodovias do Brasil, com 4.300 quilômetros de extensão. Cortada pela principal via de ligação entre os extremos do país, a região do norte do Tocantins tem o estigma da Guerrilha do Araguaia e dos conflitos de terra. As mudanças das últimas décadas têm sido mais dramáticas do que aquelas vividas nos dias de emancipação, mas ainda há uma sensação geral de que as coisas seguem pela metade.

João Pereira no seu Hotel Wanderlândia, Wanderlândia

Gilberto Araujo Oliveira no seu salão, Wanderlândia

Cristo, Wanderlândia

Memorial do Padre Josimo, Wanderlândia

Luzenir Gomes, professora, Wanderlândia

Maria Helena Rodrigues Lopes, militante de esquerda, Wanderlandia

O propósito original de uma casa hoje abandonada na esquina da Rua dos Cardosos era servir de memorial a uma figura emblemática da luta pela terra no norte do Tocantins.

O nome de Josimo Moraes Tavares é frequentemente evocado na região. Padre Josimo, como ficou conhecido, era um dos coordenadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da Igreja Católica criado na década de 1970 para tratar da situação dos camponeses e dos conflitos no campo.

A mando de um grupo de pessoas que incluía fazendeiros, um juíz e um vereador, o padre foi assassinado em 10 de Maio de 1986 com dois tiros nas costas, disparados por um pistoleiro da cidade de Imperatriz, no sul do Estado do Maranhão, onde ficava o escritório da CPT Araguaia-Tocantins.

Nascido em Marabá, Pará, em 1953, Padre Josimo viveu em Wanderlândia entre 1979 e 1982. Como coordenador da CPT no Bico do Papagaio, extremo norte do estado, Josimo atuou em defesa dos lavradores contra proprietários de grandes fazendas que se estabeleciam e expandiam os limites de suas propriedades, expulsando posseiros, grilando terras e violando direitos dos camponeses, que eram obrigados, então, a realizar trabalho escravo pelo acúmulo de dívidas.

Segundo dados divulgados em 2014, o Tocantins é um dos quatro estados brasileiros com maior número de pessoas libertadas de condições de trabalho análogas à escravidão nos últimos 10 anos. [1]

Casinha para o celular, Wanderlândia

Nascente, Wanderlândia

Vegetação, Aragominas

João de Arimatéia, Araguaína

Primeiro, motorista da Transbrasiliana. Segundo, curso de piloto, aviador, astronáutico. Terceiro, torneiro mecânico. Documentador da pesca do Brasil. Fiscal da pesca no Brasil. Tenho família, pai de família, casado, sou viúvo, dez filhos eu criei no maior sofrimento. Hoje estou sozinho, número 1, com uma mulher, sozinha, deixei, fui pra São Paulo fazer o curso novamente porque meus documentos foram queimados por uma mulher carrasca. Não queria que eu fosse nada no Brasil.

Não bebo, não jogo, não fumo. Eu penso em ter uma esposa boa novamente, uma coroa que me dê um valor e eu dê pra ela. Eu penso num futuro de carreira especial, não de carreira ocultada.

Eu vinha atravessando pra ir embora pra casa, no Maranhão, e encontro com a turma do batalhão. Deixei até a minha farda pra trás, toda cravada de bala. Então, major Nazareno, que era o comandante do exército, lourão, disse: tem farda aqui. Alma nós temos com fartura, não precisa se esquentar, Sr. João. Olha, que tristeza ir pra uma guerra. Vendo carradas de policiais vindo de lá pra cá, tudo morto. O que nós fizemos? Baixei a minha cabeça, chorei. Mas, já estava no caminho, vamos embora, ver o que que faz.

Nasci em Nova Iorque, Maranhão, mas fui criado em São João dos Patos. Rodo tudo, fim de mês eu rodo esse mundo todo. Vim pro Tocantins faz tempo, em 1977. Moro em Araguaína, no entroncamento da Av. Araguaína Sul.

Vista da Rua Cônego João Lima, Centro, Araguaína

Vista #2 da Rua Cônego João Lima, Centro, Araguaína

Prédio na Rua Cônego João Lima, Centro, Araguaína

Acidente na Rua Cônego João Lima, Centro, Araguaína

Osmar Neves, fazendeiro e comerciante de gado, Araguaína

A rodovia TO 222 acaba no pequeno porto do Pontão, no Rio Araguaia. Bares e casas de madeira se enfileiram na orla e uma choupana de palha na areia dá abrigo a automóveis e pessoas que esperam a chegada da balsa. Quem quer atravessar para Xinguara, no Pará, precisa pegar a embarcação, que atraca na praia de hora em hora. Na fila de carros, um caminhão com milhares de cadeiras espaguete coloridas contrasta com a paisagem algo sonolenta.

Enquanto espera de seu alojamento a embarcação que deixa a margem oposta do rio, Raimundo Martins Lima, o gerente do porto, se diz satisfeito por hoje morar em meio à natureza. Estava atrás de novos trabalhos, conhecer pessoas. Desbravar. Cansei de viver nos grandes núcleos. Raimundo, no entanto, deseja mudanças no lugar onde vive. Longe de mim ser um guerrilheiro como os que estiveram aqui em 1970. Mas eu espero pelo nosso futuro, pelo futuro dos meus filhos, estar morando num lugar em que as pessoas realmente respeitem a nação e aos próximos. Quem manda e desmanda aqui ainda são os coronéis. Eles não acabaram pra cá. Os ricões, os donos da letra, da palavra, do dinheiro.

Esperando a balsa no Pontão, São Félix do Araguaia

Raimundo Martins Lima, gerente da balsa no Pontão, São Félix do Araguaia

Lápide, Xambioá

Titanic, Xambioá

Esquina, Xambioá

E aí, bandido, o que é que tu tá fazendo pra Dina?

Não há nenhuma novidade na nossa presença em Xambioá. Fotografamos ruas e monumentos. O Titanic, mundialmente famoso. Visitamos a pista de pouso, um corredor largo de terra batida instalado nos arredores da cidade. Procuramos vestígios do passado no capim alto das propriedades próximas ao imenso Rio Araguaia. Vimos a curiosa arquitetura de um memorial abandonado. Furos no muro do cemitério. De carro, percorremos toda a cidade. Em uma casa no alto de um morro, armamos o tripé, ajeitamos o microfone, ON.

Antonio Alves de Oliveira passou 20 anos com medo de contar sua história. Um dia, alguém queria muito ouvi-lo, e ele contou. Agora, faz 20 anos que ele a repete para pessoas como nós e, principalmente, para o governo brasileiro, em busca de reparações. Os detalhes são estarrecedores, ainda mais com a destreza e a perfeição oral que o relato de Oliveira adquiriu nas duas décadas de testemunho público.

Antonio foi brutalmente torturado na Base do Exército que funcionou entre 1972 e 1974 onde hoje está a pista de pouso de Xambioá. Seu pecado, aos olhos militares, foi ter sido vizinho atencioso de um simpático casal de sulistas que se mudaram para o sítio ao lado do seu. Ele demoraria anos para descobrir que os dois eram importantes membros da Guerrilha do Araguaia. Dinalva e Antonio Teixeira. Preso no auge do conflito entre guerrilheiros e militares, quando tentava roubar de sua própria terra, então sob guarda de soldados, mantimentos para a mulher e um filho recém-nascido de 6 dias, encarcerados na casa de outros vizinhos, Oliveira foi levado de helicóptero para o quartel, onde passou os piores momentos de sua vida.

Eles tinham feito um chiqueiro como se fosse pra botar porco. Um curral de arame farpado. Tinha uns vinte homens, todos machucados, uns mais que os outros. Espancado e torturado com afogamentos e choques elétricos durante 5 dias, Antonio não sabia porque estava apanhando. Aguentei aquele choque ali calado, não podia gritar por ninguém, só por Deus. O que eu e minha mulher fizemos? Demos um casal de frangos para Dina.

Antonio Alves de Souza, camponês anistiado, Xambioá

Pista de Pouso, Xambioá

Memorial da Guerrilha do Araguaia, Xambioá

[1] FONTES: Ministério do Trabalho e Emprego, CPT e ONG Reporter Brasil.