Futebol, Lagoa da Confusão

OESTE

A paisagem nos permite e até nos encoraja a sonhar. E mesmo assim conquista nossa atenção porque nela há elementos que podemos ver e sentir.
Yi-Fu Tuan, Thought and Landscape: The Eye and the Mind’s Eye

Eis o caso como o caso se deu: uns dizem que entre as décadas de 1930 e 1940 os vaqueiros que trabalhavam nas fazendas da região chegaram pelo topo da serra, de onde a avistaram. Outros, que os descobridores primeiro a observaram de um avião que sobrevoava o local. Todos acabam por concordar, no entanto, que para os pioneiros, fossem eles vaqueiros ou desbravadores em um avião, chegar até a beira da lagoa foi uma tarefa rodeada de idas e vindas, confusão, cerrados densos e pântanos medonhos. Mas, uma vez com o pé na água, ali se estabeleceram.

Sábado, 3 de janeiro de 2015. Da espreguiçadeira na calçada dá para ver o vaivém dos carros pela orla. Nos bares e restaurantes com vista para a água, a música da moda treme a jukebox. A fumaça do espetinho na brasa perfumando o ar e a cerveja aliviando o calor. Bilhar na Raimunda, futebol na areia. Banana Boat. No fim de semana, a vida na Lagoa da Confusão acontece em volta do corpo d’água que dá nome à cidade. E é assim desde o dia em que, seguindo o rastro de uma boiada, os pioneiros finalmente viram a lagoa de perto pela primeira vez.

Moisés Karajá, Lagoa da Confusão

Clube, Lagoa da Confusão

Área de Camping, Lagoa da Confusão

Tobogã do Clube Lagoa da Ilha, Lagoa da Confusão

Rogério da Silva, dono do Clube Lagoa da Ilha, Lagoa da Confusão

José Pereira dos Santos e Deusirene Pereira Rocha em lua de mel, Lagoa da Confusão

Raimunda Rodrigues de Souza no Lagoatur restaurante, Lagoa da Confusão

Airton Adonias Xavier, o Homem Bombril, Lagoa da Confusão

Não nasci pra viver isolada. Aqui todo mundo me conhece, todo mundo me cumprimenta. Se eu saio daqui uma semana, todo mundo sente falta.

Em seu restaurante, o Lagoatur, Raimunda de Souza prepara piranha frita e fala dos sonhos que ainda não realizou. Quando jovem, queria ser uma cantora famosa, mas interrompeu o sonho para se casar. Anos depois, quando bateu o arrependimento, achou que era tarde demais para retomar o desejo juvenil. Não era.

Após o almoço, recostada sobre a mesa de bilhar, Raimunda e Renan Borges – cantor conhecido nos banquinhos da noite lagoaense – fazem um dueto. A música escolhida ficou famosa na voz de outra dupla, Maída e Marcelo. Conta pra mim:

Se seu amor acabou, se pra você já não sou o sonho que deseja
Abra o jogo pra mim, prefiro que seja assim, põe as cartas na mesa
Quando acaba a paixão, no peito a solidão não tem ninguém que segura
Temos que ter consciência pois viver de aparência é loucura

Pedalinho, Lagoa da Confusão

Vista da Rua Martins Paz da Silva, Lagoa da Confusão

Casa Paroquial, Lagoa da Confusão

Maura Rodrigues, Lagoa da Confusão

É aqui, não é, é ali, não é, é pra lá.

Numa tarde tranquila de domingo, Moacir Pianesso dá sua versão da contada e recontada história da descoberta da Lagoa. Mas ele não é nenhum especialista no assunto. O mecânico chegou com a família no Oeste tocantinense apenas em 2005. Claudete, sua esposa, diz que eles deixaram o frio de Catuípe, nas Missões do Rio Grande do Sul, para viver no coraçãozinho do Brasil.

Outro membro da numerosa comunidade gaúcha de Lagoa da Confusão, Aldinez Dalaporta é natural de São Borja. Muitos dos sulistas vivem diretamente da agricultura ou dos serviços necessários para manter as imensas lavouras de soja e arroz do sudoeste tocantinense. Aldinez faz os dois. Além de manter sua plantação, é piloto de avião agrícola. Com o Ipanema amarelo estacionado ao fundo, o ex-piloto da Varig relembra como, em 1986, chegou até ali. Eu nunca imaginei estar no Tocantins. Depois que saí da aviação comercial, meu rumo era a Amazônia, o garimpo. Um dia estava visitando amigos e eles pintaram isso aqui de ouro. Acabei ficando.

Nos últimos anos, Aldinez tem estado especialmente preocupado com as tempestades solares que podem interromper repentinamente as telecomunicações na Terra. Pode levar 10, 50, 100 anos, mas vai acontecer. E o mundo globalizado vai entrar em pane. Os aviões vão ficar sem GPS, os bancos sem internet. Parece que sou maluco, mas estude e procure sobre o que está acontecendo e que nunca na história aconteceu. É inevitável.

Claudete Terezinha Pianesso na oficina, Lagoa da Confusão

Audinez Dalaporta em frente ao seu avião, Lagoa da Confusão

Objeto #1 (Motoserra), Lagoa da Confusão

Objeto #2 (Revólver), Lagoa da Confusão

Folia de Reis, Lagoa da Confusão

No domingo à noite, as ruas de Lagoa da Confusão estão praticamente vazias. Aqui e ali, no entanto, grupos vão se reunindo em bares e salões para o forró que fecha o fim de semana. Nos arredores de um deles, motoristas sentam no banco das motos estacionadas e observam as gentes dançando e bebendo. No chão de cimento, casais arrastam pé para Cabra Namorador. O casado sai solteiro, o solteiro sai casado.

Ao lado dos músicos, um homem segura um galeto na marmitex de alumínio e, competindo com o som alto, conversa com quem, de olho no item, passa ao lado. Entre uma música e outra, um dos cantores anuncia o leilão e começa a receber os lances.

Quem dá mais? 35,35. Tá demorando. Senão, acabou o Forró. 35, 35, 35, 35, dou-lhe uma. 35, 35. Ei, gaúcho. 35, 35. Cadê o menino lá do Luso? Tava doido pra comer um frango, sumiu agora. 35, 35, dou-lhe duas. 35, 35. Ih, Bené, tá barato. 35, 35. Deu aí, hein Bené? Ei, Bené? Benedito?! Eu vou entregar. 35, 35.

Folia de Reis #2, Lagoa da Confusão

Forró #2, Lagoa da Confusão

Forró #3, Lagoa da Confusão

Fim da Folia, Lagoa da Confusão

Tamanduá, Lagoa da Confusão