Quintal de Dona Romana, Natividade

SUL

Se você caminha por essas linhas, consegue ver o quanto o passado alcança o presente.
W. G. Sebald

No final da tarde de 19 de Janeiro de 2015, estamos voltando de uma caminhada pela Rua Justino Camelo Rocha, nos arredores de nossa pousada em Natividade. A câmera vai gravando uma cena sem grandes promessas – cadeiras do Rei do Espetinho Acompanhado no primeiro plano, ao fundo, uma parede onde se lê, com alguma dificuldade, a palavra Siqueira –; sem notar que está sendo filmado, um senhor entra na cena e, estafado, senta-se com uma mistura de pressa e cautela na cadeira logo à nossa frente. Pessoas que o acampanham notam nossa presença – a presença de uma câmera – e o reprimem por invadir a filmagem. Ele sorri, dá um oi, e se ajeita ainda mais no descanso.

Por acaso, Patrício Santana é um sujeito famoso. Nessa tarde, ele aparenta cansaço porque volta de sua derradeira folia do divino, em Porto Nacional, 160 quilômetros ao norte. Junto com Belarmino Ferreira, Patrício já rodou boa parte do Estado e do Brasil representando a tradição nativitana. Ao aparecer de surpresa em nossa frente, gira mais uma vez sua folia: Natividade, terra que amo /  Aprendi a amar desde menino / Nossa Senhora nos pôs à Benção e vai guiando nosso destino / Aqui se vive com amizade / Tudo que não presta logo vai saindo / Porque essa comunidade é abençoada pelo meu divino.

Mais próxima do paralelo 13 – por volta de onde se encontram as linhas políticas da divisão territorial entre Tocantins e Goiás – Natividade é um patrimônio cultural tocantinense que passou mais de 250 anos como patrimônio goiano. A cidade carrega, talvez como nenhuma outra do Tocantins moderno, as rugosidades que Milton Santos descreveu como o que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. Zezinho Américo, que nasceu no Tocantins e tocantinense sempre foi, se mistura ao giro da folia renovando uma tradição que seu território herdou, e carrega hoje os costumes do passado goiano que os Catireiros Belarmino e Patricio não conseguiriam abandonar nem se quisessem.

Patrício Dias Santana, catireiro, Natividade

Belarmino Rumão Ferreira, catireiro, Natividade

José Américo dos Santos, catireiro, Natividade

Caminho ao Povoado Bonfim, Natividade

Caminho ao Centro Bom Jesus de Nazaré, Natividade

Romana Pereira da Silva, a Mãe Romana, nasceu em 1941 e foi criada na mesma chácara onde vive até hoje, conhecida como Centro Bom Jesus de Nazaré, nas cercanias de Natividade. Rodeada por esculturas feitas de Pedra Ferro, cimento, areia e outros materiais, a propriedade é um lugar único, que reúne centenas de imagens e signos de referência sincrética criadas por ela e por seus seguidores. As criações são feitas a partir de instruções de entidades que visitam Dona Romana desde pelo menos a década de 1970. Hoje, o local recebe visitas de fieis e curiosos de várias partes do Brasil, e nos bastidores é mantido como um abrigo com salas repletas de mantimentos armazenados para um futuro apocalíptico.

Galpão com provisões para o apocalipse, Centro Bom Jesus de Nazaré, Natividade

Galpão com doações, Centro Bom Jesus de Nazaré, Natividade

Dona Romana no Centro Bom Jesus de Nazaré, Natividade

Comércio, Natividade

Comércio, Natividade

Comércio, Natividade

Fachada, Natividade

Ruimar Antonio de Farias, líder da comunidade Quilombola Lagoa da Pedra, Arraias

Lucrécia e Evandro Moura Dias na rodoviária, Arraias

A primeira vez de Lucrécia em Arraias foi impactante. Ela tinha 12 anos e nunca havia posto os pés na zona urbana da cidade onde nascera. Criada na comunidade Lagoa da Pedra, na educação da roça, ela acompanhava sua mãe em uma de suas ocasionais visitas à área central do município, onde compravam provisões e utensílios que não encontravam na zona rural. Com Evandro, seu irmão, e outros de sua idade, foi a mesma coisa.

Para as novas gerações da comunidade, isolada, distante cerca de 40 quilômetros do centro de Arraias e historicamente alvo de preconceito pelo passado de Quilombo, uma vez longe de casa e capaz de realizar a comparação entre os dois mundos, o apelo da zona urbana e das oportunidades que ela oferece é irresistível. O pensamento dos jovens é ir para o centro, viver em Brasília, Goiânia – quase nunca Palmas – e encontrar trabalho, melhorar de vida. Lucrécia e Evandro tiveram o mesmo desejo; e, no entanto, decidiram ficar.

A gente sofria muito preconceito, pela cor, por ser da roça. Eu tinha receio de falar ‘sou da Lagoa da Pedra’. Na escola, éramos rejeitados. Depois que a comunidade foi reconhecida, a gente ia a palestras, encontros, fomos entendendo o que era ser quilombola, que não era algo para termos vergonha, era para ter orgulho. A partir desse momento, começamos a nos defender. Antes, quando éramos discriminados, a gente se calava. Hoje a gente já tem a resposta pra dar: eu tenho orgulho de ser da Lagoa da Pedra e de ser negra. Sou descendente de quilombo, de escravos, sim. Não tenho mais aquela coisa de ‘ah você é preta’. Eu sou mesmo. Sou preta.

Praça da Juventude, Arraias

Rua Diolino S. Freire, Arraias

Rua Coronel J. Aires Teixeira, Arraias

Cristo, Arraias

Weberson Rodrigues Queiroz, o MC da 10, Arraias

Diogo Martins Sena, o MC Blu, Arraias

Fronteira GO – TO, Arraias

Vista da prefeitura, Almas

Leonardo Cintra, prefeito, Almas

Jovem Trabalhando, Almas Crescendo
Slogan da Prefeitura de Almas

Em 2008, Leonardo Sette Cintra assumiu a candidatura do pai, Osmar Cintra, a dois dias da eleição para prefeito de Almas, cidade de pouco menos de 8 mil habitantes a 100 quilômetros ao norte de Natividade. O pai, Osmarzinho, como é conhecido, enfrentava um processo na Justiça que poderia, caso fosse eleito – e condenado – afastá-lo do mandato. Preferindo não correr tal risco, indicou o filho para assumir a campanha. Em 5 de outubro daquele ano, 1999 cidadãos almenses deram a Leonardo seu cargo de prefeito. Ele tinha 21 anos.

É comum no Brasil inteiro. Geralmente, quem é político vem de uma família política. São poucos os que conseguem crescer na vida pública se não ingressarem muito cedo. Só quem é muito engajado, porque não é fácil. O político é muito apedrejado. Quando foi reeleito em 2012, aos 25 anos, Cintra perdeu o título de prefeito mais jovem do Brasil, o que lhe dera alguma fama nacional nos dias seguintes à sua primeira eleição.

Entre 2013 e 2014, foi presidente da associação que reúne os prefeitos dos 139 municípios tocantinenses. No período, conheceu o Estado inteiro, cada estrada e cada atalho. Para dar conta dos muitos compromissos e do atendimento a todo mundo que lhe procurava, de Almas e de outros cantos, fez uso de uma ferramenta onipresente nas mãos de sua geração. O whatsapp facilitou minha vida. Quando estava com alguém na minha sala, não conseguia atender a pessoa e falar ao telefone. Hoje consigo fazer duas, três, cinco, até dez coisas ao mesmo tempo.

Wilson de Souza Castilho, presidente do Gurupi Esporte Clube, Gurupi

Urânio Pereira, tratorista e volante do Gurupi Esporte Clube, Gurupi

Rogério Guislera, o Paraguaio, estudante e atacante do Gurupi Esporte Clube, Gurupi

Aqui, o contato dos jogadores com os torcedores é muito próximo. O que separa uns dos outros é só um alambrado. Quando acaba o jogo, todo mundo convive no dia-a-dia da cidade, dos bairros.

Wilson Castilho preside o Gurupi Esporte Clube há oito anos. Em 2015, se reelegeu para um mandato de mais dois. Com franqueza, Castilho apresenta suas ambições para o Camaleão do Sul: A Série A eu não sei, mas eu vejo o Gurupi jogando uma Série C, a Série B. Existem mais de 3 mil clubes no Brasil. A CBF ranqueou 231, estamos na posição 84. De Tocantins, nós somos o primeiro.

A gente sabe que vai ser muito difícil chegar ao nível dos grandes centros, Sul e Sudeste, onde tem o futebol mais forte do Brasil, mas mesmo com todas as dificuldades, o futebol do Tocantins pode alcançar posições melhores.

O Censo diz que Gurupi tem 80 mil habitantes, mas eu acho que já são 100 mil. Tem clubes de cidades de menos de 20 mil habitantes jogando a Série C. Depende muito do apoio que recebe. Se você tirar os 20 clubes da Série A e os 20 da Série B, todos os outros dependem do governo municipal para sobreviver. Quando você vir um time do interior ser campeão, pode ver que tem a mão da prefeitura.

Estádio Rezendão, Gurupi